Espaços Autônomos

Durante o IX Encontro Latino Americano de Organizações Populares Autônomas – ELAOPA, houve um grupo de trabalho entitulado “Educação e Espaços Autônomos” que acbaou se tornando uma troca de experiências sobre os diversos grupos do país que tentam e tentaram manter espaços físicos para suas organizações. Nesse sentido, apresento apresento os pontos levantados ao longo do debate com o objetivo norteador para o atual desejo da Convergência de Grupos Autônomos.

  1. Definir o objetivo/caráter do coletivo e por consequência do espaço

O principal ponto levantado foi a definição pelo coletivo de seus objetivos políticos para além dos objetivos de longo prazo comuns à esquerda. Quando se define o ponto de alcance desejado, é possível definir o caráter desse coletivo baseado nas estratégia de ação pensadas. Deste modo, foram apresentados dois tipos de espaços autônomos:

  1. Espaço Comunitário: onde é necessário a inserção numa determinada comunidade, em que os participantes do coletivo devem, de preferência, morar no mesmo local para congregar das necessidades comunitárias, sentindo no cotiano seus desafios e possibilidades. Esses espaços, geralmente possuem maiores estruturas e apresentam objetivos de maior prazo que envolvem o empoderamento político da comunidade local. Por isso, devem ficar atentos em não estabelecer laço de dependência com a mesma durante o processo de construção de sujeitos políticos.
  2. Espaço de apoio à movimentos sociais: esse tipo espaço necessita da localização central na cidade para facilitar o acesso de todos os grupos e pessoas envolvidos no cotidiano político do espaço, seu principal objetivo não é criar novos agentes políticos, mas dar o suporte necessário a coletivos já organizados. Deste modo, pode apresentar um menor espaço físico e não necessita participar ativamente do cotidiano local.

Ambos os espaços possuem características não excludentes, por outro lado, os mesmos necessitam de definições estratégicas para que seus diferentes e complementares objetivos sejam alcançados. Os dois espaços possuem caráter de formação educativa, enquanto o primeiro se propõe à formação inicial e à incitação ao envolvimento político, o segundo se afirma como um espaço de aprofundamento e trocas de experiências entre os coletivos já ativos.

  1. Divulgar princípios

Mesmo com diferentes características, os dois espaços lidam com pessoas não inseridas no cotidiano político da esquerda autonomista e precisam deixar claro seus princípios aos novos participantes ou frequentadores passageiros para evitar problemas pessoais, ao mesmo tempo, que divulga os princípios deste outro mundo que lutamos por conquistar.

  1. Definir limites

Como uma ação preventiva à frustrações e possíveis extinção de coletivos, é necessário traçar objetivos condizentes com as possibilidades do coletivo em questão. Essa prática não deve ser confundida com reformismo, mas o estabelecimento de etapas claras que trazem conquistas, envolvimento e alegria ao coletivo. Assim, deve-se estabelecer:

  1. Perfil político dos coletivo:
  • Que mundo nós queremos?
  • Que princípios seguiremos para conquistar esse mundo?
  1. Estratégias:
  • Qual é a luta que meu coletivo tem mais afinidade nesse momento?
  • O que devo fazer, durante este tempo determinado, para conquistar esse mundo?
  1. Táticas:
  • Quais são os recursos (materiais e imateriais) necessários para atingir meus objetivos e sustentar o cotidiano de trabalho desse coletivo?
  • Como conseguir esses recursos?
  1. Mapear participantes

Uma das questões apontada como grande causa de frustrações em coletivos que tentam gerir seu próprio espaço é o não comprometimento de todos os envolvidos no coletivo. Nesse sentido, foi alertado o fato de que nem sempre sujeitos identificados como integrantes do coletivo o são de fato, este se caracterizam mais como simpatizantes ou colaboradores. O mapeamento dos integrantes comprometidos em atuar no cotidiano do espaço pode evitar tarefas não realizadas e problemas pessoais dentro do espaço. Esta questão não pretende hierarquizar os integrantes de acordo com a participação, mas evitar a sobrecarga de indivíduos que, na realidade, não desejam acumular muitas tarefas e possíveis crenças de descomprometimento.

  1. Estratégias de acúmulo humano e financeiro

A grande maioria dos coletivos apresentado durante a atividade do IX ELAOPA, estavam endividados ou fecharam por problemas financeiros, somente um espaço conseguia se sustentar através de recursos conquistados com festas. Pode-se identificar duas maneiras de sustentar um espaço:

  • Doações: em que é de extrema importância o comprometimento e estabilidade dos envolvidos para que o coletivo não seja pego de surpresa com a falta de qualquer doação não comunicada com antecedência.
  • Festas/Comércio: essa possibilidade requer integrantes do grupo dispostos a lidar com o cotidiano de trabalho não remunerado para o espaço e é mais comum nos espaços comunitários, que apresentam maiores proporções e envolvimento com o cotidiano dos integrantes.

Em ambos os casos, se possível, é necessário trabalhar com um fundo de segurança financeira.

  1. Política sobre o uso de drogas

Mesmo com características diferentes, todos os tipos de espaços constituem espaços de convivência, que congregam pessoas com diferentes interesses e procuram ser espaços convidativos a todo tipo de pessoas. Uma discussão franca em torno do uso de drogas lícitas e ilícitas no local pode evitar desentendimentos e o afastamento de públicos que ainda não engajados politicamente. Deve-se levar em consideração os objetivos políticos do coletivos nessa discussão, os diferentes momentos que envolvem o cotidiano do espaço autônomo e o perfil das pessoas envolvidas e das pessoas desejadas nesse processo. O resultado da discussão deve ser divulgado.

  1. Práticas políticas que constroem

Mesmo que os coletivos em questão nesse texto atuem em todas as facetas da sociedade, questionando suas desigualdades econômicas, sem perder o foco nas explorações sociais que envolvem questões raciais, de gênero, sexualidade e geracionais, os coletivos devem ter em mente que procuram construir um mundo novo. Deste modo, sua prática política deve partir de ações construtivas e não segregadoras, já que mais pessoas envolvidas repensando suas práticas é melhor do que uma minoria reformulada politicamente que só dialoga com seus iguais. Sem construção não há revolução!

Gabriela de Andrade

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